segunda-feira, 6 de abril de 2009

Análise Filme "V de Vingança" x texto "A Verdade"


Quais as semelhanças entre o texto A Verdade, da Marilena Chauí, e o filme V de Vingança, de Alan Moore? Inúmeras. Mas a que se sobressai, é a forma como as informações são manipuladas, alteradas ou ignoradas. E para compreendermos essa manipulação, essa distorção, o texto A Verdade traz subsídios para entendermos esses fenômenos.
Relembrando o filme, é importante evidenciar o contexto em que ele ocorre. Um país que vive dominado por um governo autoritarista que manipula toda a população, principalmente através dos meios de comunicação. Há também repreensões quanto a ideais e organizações, e com restrições de circulação das pessoas pelas ruas. Porém todo esse cenário ditatorial começa a ser modificado quando um vingador, denominado V, dá início a sua revolução para derrubar o governo.
No texto da Chauí há toda uma reflexão e definição do que é verdade. Para isso ela aborda temas como: Ignorância, incerteza e insegurança; Dificuldades para busca da verdade; Dogmatismo e busca da verdade; As concepções da verdade; Diferentes teorias sobre a verdade; Verdade e falsidade; A concepção da verdade na Filosofia analítica; dentre outros.

Para a compreensão da verdade, é importante saber as definições que diferenciam ignorância, incerteza e insegurança.
Ignorância deriva de ignorar, que nada mais é do que não saber alguma coisa. Esse estado de ignorância é mantido em nós enquanto o mundo que nos cerca for satisfatório, ou as coisas que temos como verdades suprem nossas necessidades. A partir do momento que há um questionamento sobre o que realmente sabemos, saímos da ignorância.
A incerteza é quando nos damos conta de que somos ignorantes. Na incerteza podemos não saber o que pensar, o que dizer ou o que fazer.
Quando passamos pela incerteza cheios de medos, dúvidas e chocados pelas descobertas, chegamos à insegurança.
Tendo consciência de sua ignorância e começando a fazer questionamentos para querer saber mais, estamos sendo tomados pelo espírito de busca da verdade.
No filme podemos perceber essa evolução a partir do momento em que V invade a emissora de televisão estatal e anuncia para todos os espectadores que estão sendo enganados pelo governo. Até então, todo o país vivia às sombras das mentiras, mas após o estopim acionado por V, a população passa a refletir quanto à atual situação. A primeira ideia é de que V esteja inventando alguma mentira, mas isso é uma característica de quem passou por um longo tempo atrelado à ignorância. Algumas pessoas continuaram presas à ignorância, alguns passaram à incerteza e outros começaram a questionar a verdade que viviam, passando então a buscar a real verdade.
Sempre que algo nos é dito, buscamos saber se isso é realmente verdadeiro. Para isso utilizamos todo o nosso conhecimento adquirido durante o passar dos anos. Portanto, quanto algo que até então era um fato concreto passa a ser mentira, há uma decepção, Porém há uma grande diferença entre a mentira e o “de mentira”, já que nesse, não há a intenção de que seja tomado como realidade.
Em nossa sociedade sempre nos deparamos com situações de faz-de-conta, como histórias de ficção, novelas, teatros, lendas, etc. Contudo, temos consciência de que tais fatos não são verdades. Porém também nos deparamos com mentiras como quando passamos a estudar assuntos específicos. Um fato que é de comum conhecimento a todos é a parte da história do Brasil que diz que sua descoberta ocorreu em 1500, por Álvares Cabral. Mas se nos aprofundarmos no assunto vamos descobrir que esse fato não condiz com a realidade.
Em nossa sociedade encontramos grandes dificuldades para estimular esse desejo de buscar a verdade. Constatamos isso claramente no filme quando um único meio de comunicação transmite as informações, e faz com que toda a população julgue e acredite que isso seja real. No meio que vivemos, estamos cercados de diferentes emissores de informações. Recebemos essas informações pela televisão, rádio, escola, internet, pessoas, etc. E essa variedade de fontes torna muito mais difícil a busca pela verdade, pois acreditamos que, recebendo informações de vários locais, possuímos dados suficientes para julgarmos o que é verdade.
O que precisamos é ter noção de que nem tudo que nos é dito é real. E para isso é necessário driblar os obstáculos que os meios de comunicação, e outras fontes, deixam no meio do caminho entre a informação e a verdade.

Mas afinal de contas, por que é tão difícil termos acesso às bases da verdade? Parafraseando Kant que diz: “Não se aprende Filosofia, mas a Filosofar”, penso que a grande razão para não conseguirmos guiar a humanidade para longe da ignorância, seja o fato da falta de noção da existência da ignorância. Eis que então surge outro questionamento, por que só algumas pessoas estão condicionadas a pensar? Será que vivemos em uma sociedade burra? Não seria exatamente esse o caso. Como já mostrado no filme, a mentira é mantida por um grupo autoritarista que governa o país. A cima de tudo, a mentira é mantida para que a população não se dê conta de que está sendo manipulada. Eis então que surge nosso vingador, V. Ele, contando com todo seu conhecimento em lutas como político, parte para um confronto, até certo ponto anárquico, contra o governo. Toda a história se passa mostrando a luta de um guerreiro solitário que com muita braveza chega a seu objetivo. Além de conseguir de conseguir derrubar o ditador do poder com suas próprias mãos, ainda consegue cativar a toda a população para que o sigam. Com toda certeza, o mais importante não foi a mudança de governo, e sim o engajamento da população.
Agora se trouxermos o mesmo contexto para nosso dia-a-dia, ele se encaixa perfeitamente, pois também vivemos em uma sociedade coberta por uma face da mentira. É claro que não vivemos uma ditadura militar como a encenada pelo filme, mas vivemos uma ditadura moral, que não oferece informações a boa parte da sociedade. Se formos analisar em função das classes sociais, podemos dizer que, com exceção das elites dominantes, o povo não tem a real noção do que os cerca.
Então por que não há uma preocupação em difundir a verdade? Ora, justamente pelo fato das classes dominantes poderem continuar explorando as mais fracas. O próprio governo não mostra vontade alguma de alterar esse panorama, pois quem escolhe as lideranças é justamente a classe dominada. Portanto, não é interessante que todos tenham conhecimento de como o sistema funciona. Possivelmente o primeiro passo para termos uma sociedade consciente seria um excelente investimento em educação básica, para que desde cedo estivéssemos aptos a pensar sobre o mundo. Mas nem sequer os professores, que tem a função de repassar esse conhecimento, recebem o devido reconhecimento.
Para tentarmos mudar esse cenário, é de extrema importância que haja uma conscientização coletiva, e para isso, cada indivíduo tem de fazer sua parte, cada líder comunitário, lideranças da igreja, leigos e qualquer pessoa que se sinta na posição de passar a diante essa necessidade de questionamento.
Hoje como não há um engajamento massivo da sociedade, torna-se complicado debatermos os problemas sociais. Mas a partir do momento que a grande maioria passar a condição de dominação à detentora do conhecimento, abrir-se-ão novos horizontes para o futuro. Hoje estamos limitados às vontades de poucos.

2 Comentários:

Marcelo disse...

Não li o livro "A Verdade", mas vi V de Vingaça, tem uma bela mensagem. Achei a conclusão do texto, como talvez também seja a conclusão do filme, um tanto quanto sonhadora. Não só hoje, como sempre, as massas ignorantes foram dominadas pelas elites minoritárias.. Como convencer cada líder de cada comunidade a ser o que não é?
Interessante todo o texto de maneira geral! Talvez seja pelo meu pessimismo que não agrade o fim do texto..

Fiss disse...

Concordo com o post acima. Feliz ou infelizmente, a sociedade está fadada a possuir diferenças. Nós somos algo por sermos diferentes um do outro. É impossível que todos tenhamos o mesmo conhecimento. Alguns sabem mais de algumas coisas, outros de outras. Alguns mais e outros menos.

Não pense que quem sabe menos o faz por ignorância. Muitas vezes isso é uma escolha motivada por ser mais fácil, pelo interesse em coisas não interessantes aos olhos de quem julga, pela felicidade proporcionada por fazer coisas que quem julga acha errado, ou ineficiente.

Quase todos pensam, encontram conflitos existencias, pensam em conspirações. Exceções existem, é claro, mas tendem a muito menos do que 1%.

A diferença entre nós se dá pelo nosso objetivo. Não temos um. Portanto aí está nossa liberdade, e aí está a diferença. Ao seu ver, alguns vivem muito mal, alguns muito bem. Porém isso tem relação com o seu objetivo. Nós todos vivemos melhor do que os imperadores do passado. Tudo é relativo.

E mesmo que se leve em conta o objetivo da maioria, ainda assim a diferença é justificada: somos animais. Existe um lobo alfa, uma abelha rainha. Feliz ou infelizmente, a natureza nos fez assim. Somente sendo diferentes, e não tendo tudo, que seremos felizes.

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