sábado, 20 de junho de 2009

Saudades de Mim


Crônica - Ana Ribas Diefenthaeler Jornalista
(e mãe da Nicolle!!)

Há mais de 20 anos, quando cheguei a Joinville, a cidade era uma delicadeza só. As pessoas dormiam muito cedo – hábito ao qual não me acostumei até hoje – e a vida tinha um tom delicioso de simplicidade, apesar de ser um dos mais importantes centros industriais do País. Recordo que, na minha primeira semana, terminamos o trabalho no jornal por volta das dez da noite e fomos a uma pizzaria, para um papo e umas cervejas.

Ao chegar lá, o garçom nos olhou com uma cara estranha e, de soslaio, percebi algumas cadeiras já descansando da jornada daquele dia, sobre suas mesas. Ao ver entrar aquela turma, o rapaz se desesperou e tentou explicar que o lugar estava fechando. Caramba, onde iríamos degustar e metabolizar nossas inquietações de jornalistas?

Acostumada a dormir na madrugada – que é à noite que as coisas se tornam mais claras para serem retratadas com precisão no papel –, demorei a me habituar a chegar cedo em casa. Apesar disso, era uma Joinville cheia de encantamentos, a que eu começava a descobrir.

Tinha uma vizinha que só falava alemão e a quem eu não conseguia nunca entender, tinha um eterno ar de romantismo na alameda das Palmeiras, tinha um cheiro de mar e de terra molhada. Sobretudo, tinha uma verde paisagem de nós. Então, a gente fica se perguntando o que aconteceu com a cidade nesse curto espaço de tempo... Por que, hoje, as manchetes dos jornais são tão dolorosamente sépias? Nunca se matou tanto em Joinville, as ruas estão repletas de jovens drogados, permutando vida, inclusive as alheias, pelo engano do crack... Há uma crise de esperança, será?

As casas são cheias de grades, escondendo os lindos jardins que nos habitavam, a violência aprisiona, as pessoas estão sempre com pressa. Nos finais de semana, estamos tão cansados que esquecemos de nossos amigos, mergulhando horizontalmente, nas tardes de sábado.

Sinto falta daquela poesia da Babitonga, dos sobretons dos casarios em enxaimel, dos botecos que frequentávamos perto do jornal, da alegria saudável da paixão pelo trabalho e pela vida. Sinto falta do tempo em que não tocávamos a vida com a ponta dos dedos – mas fazíamos tudo com visceral dedicação. Tenho medo, mesmo, de deixar para meus netos um mundinho inevitavelmente preto-e-branco. Ou de não conseguir ajudá-los a descobrir suas próprias aquarelas.

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